Humor no Boteco

Humores. Porfírio abriu sua fala para comentar que algumas pessoas diziam daquela conversa de boteco: faltava humor. “Esta conversa de boteco deve ser muito chata, pois não fala de amenidades” – emendavam. Porfírio sentenciou que realmente este era o maior dilema. No meio de tantas mazelas na sociedade haveria espaço para o humor? Para amenidades? O risco era cair na vulgaridade e esta não fazia o perfil da turma. É evidente que havia o momento do riso, da gargalhada mesmo. Retratar este momento de tamanha descontração era difícil. Uma piada prescinde da ambientação momentânea. Contá-la depois não teria tanta graça, isto tinha a certeza. O melhor era sugerir o “CQC” da Band, o “É tudo improviso” também na Band. Certamente eles são melhores do que a turma do boteco.



Categoria: Edição 09/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 15h15
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Amor Complacente

Praxedes emendou o discurso sobre um novo tema difícil: o amor complacente, contemplativo. Basta entrar em qualquer templo de qualquer religião para que o famoso amor ao próximo fosse anunciado em frases melodiosas. O egocentrismo encontrado nas seitas contrapõe ao conceito. A hipocrisia também. Proclamam que a verdadeira salvação está ali, porque têm o melhor proceder. Cada uma defende ser o melhor caminho para Deus. Seria mais uma utopia. Afinal, sobrou a dúvida em todos: Haveria a utopia boa e a má? Daria para qualificar e colocá-las nos extremos, na luta entre o bem e o mal?



Categoria: Edição 09/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 15h15
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Utopia para o Bem e para o Mal

Praxedes Antunes abriu a conversa sobre a utopia, defendida pela Marina Silva, pré-candidata à presidência. Muita gente ficou pasma sem entender o sentido prático do conceito. Calmamente ele tentou explicar o que entendia. “Em uma sociedade tão sequencial e concreta como a nossa, é difícil entender mesmo. Hoje mais se discute o tempo das horas e quase nunca o tempo de conteúdo. Em nosso tempo vale muito um bom carro ou uma tecnologia aplicada a um equipamento. As idéias mais abstratas que exigem a reflexão são desprezadas. Estamos tão acostumados aos padrões e ao instala e funciona que qualquer movimento que nos exija pensar é considerado um ‘viajar na maionese’. Como sofrem os utópicos! E como sofreriam os então jovens das décadas de 60 e 70. Utopia é acreditar que o mundo pudesse ser mais perfeito, mais justo. Utopia é fazer a transgressão como o fizeram tantos homens importantes para a nossa história. Transgredir é quebrar a tradição atual que tanto superficializa nosso modo de viver. Utopia é acreditar que possamos ter uma mudança completa nos costumes da sociedade, em momento em que todos reclamam das dificuldades que o nosso mundo tão consumista nos impõe. Mesmo porque se algumas idéias utópicas deram certo, outras nem tanto. O mundo socialista do Fidel não vingou. O de Chávez está levando a Venezuela à bancarrota. Tudo porque utopia pressupõe o bem estar da sociedade como um todo e não simplesmente o poder de ‘ditadores’. Pressupõe orgasmo coletivo e não egocêntrico. Nada de luta entre personagens. A verdadeira utopia está no campo das idéias.” O discurso fez calar o boteco. Muitos entenderam, alguns nem tanto, outros nada mesmo. Não se importou com isto, o Praxedes. Se nada tivera ficado instantaneamente poderia ser a preparação para algo muito profundo que pensava que irá acontecer. Pensava, afinal, que este embate – consigo mesmo - teve origem na leitura do artigo do Jabor em que fala da crença dos anos 60, que se poderia salvar o mundo, “em uma espécie de amanhecer iluminista”. No final do texto ele afirma estar vivendo o “horror utópico”.



Categoria: Edição 09/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 15h13
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Desacordo Ortográfico

Tibiriçá veio, para finalizar a conversa, com a grande confusão que está gerando o acordo ortográfico. Admirou-se com a confirmação do famoso Pasquale na TV, sugerindo a verdadeira panacéia que foi criada. O uso do hífen é o maior causador de dúvidas. Leu no jornal de hoje uma notícia super-interessante (olha o hífen aí gente!). Uma leitora do jornal ‘O Tempo’ contava da resposta de uma coreana a um comentário dela sobre a sua fala quase sem sotaque: “Vocês, brasileiros, gostam muito de brincar e têm tempo para a gramática”. Fecha o pano e concluímos que o acordo ortográfico é mais uma gozação brasileira.



Categoria: Edição 03/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h51
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Filhos e Relações

Um novato no boteco abriu a discussão seguinte. Estava com problemas com os filhos. Relações são sempre fonte de sofrimento, sentenciou Praxedes, lembrando-se de Freud. Nós temos o “destino” de sermos pais, no estilo “crescei e multiplicai”. Mas nós nunca estamos preparados para criar família. Casamos novos e não nos damos conta da responsabilidade de que nos investimos. Nascem pessoas diferentes do nosso estilo, com gostos e vontades próprios. Na verdade, potencializamos as dificuldades. Multiplicam-se, na verdade. Aos nossos desafios, vêm os compulsórios desafios de outros, mesmos que tão íntimos. Praxedes dirigiu-se ao novato e disse sem meias verdades que se hoje estava assim, amanhã também estaria. Não tem jeito de uma solução derradeira e cabal nem para filhos, nem para pais. Na verdade, “cada um com seus problemas”, repetindo esta frase muito popular.



Categoria: Edição 03/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h50
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Burrocracia Eficaz

A notícia de que a Caixa vai liberar recursos do FGTS, para quem tinha conta antes de setembro de 1.971, animou a conversa. O tom da crítica do Praxedes Antunes era da facilidade que os órgãos públicos têm em dificultar o acesso. No edital, aparecem as exigências de documentos certamente perdidos ao longo do tempo. Fica a pergunta: Por que a gente tem que sempre provar o direito? A resposta é simples: o ônus da prova é de quem exige um direito seu.



Categoria: Edição 03/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h49
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Deputado Falaz

Porfírio Ventosa abriu a conversa, citando a falácia dos políticos. Tem deputado por aí abrindo tiroteio contra o aumento da COPASA. Tudo bem se a gente não reconhecesse aí o estilo contraditório oportunista do “si hay gobierno, estoy en contra de”; principalmente quando o governo que não é do seu partido. Defendeu que a estratégia era simples forma de aparecer na mídia, fazendo discurso demagógico da defesa dos mais carentes. Longe dos holofotes certamente os políticos terão que reconhecer que, antes de conferir a validade da medida de aumento, seria necessário um esforço sobre-humano para educar as pessoas sobre o uso da água. Praxedes entrou na conversa e relatou que no último sábado passava pela rua e viu uma “enxurrada” correndo rua abaixo. Pensou em algum cano estourado; mas para sua surpresa eram dois sujeitos lavando um carro. A mangueira aberta e solta na calçada. A incoerência estava aí, concordaram. Certamente pai e filho estariam do lado do deputado. Aumentar a conta, nem pensar; mas economizar água não fazia parte de seus modelos mentais. Afinal é um recurso natural abundante que o governo extrai facilmente; então não é justo cobrar tanto. A pergunta para eles é se vai sobrar energia ao deputado para educar o povo para não desperdiçar.



Categoria: Edição 03/fevereiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h48
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Blogs e outros Bichos

Praxedes estava impossível. Quis de novo tocar em um ponto polêmico. É incrível a quantidade de blogs, twitters e outros bichos por aí. Está sendo inventada a nova torre de Babel. E só fazem muito sucesso aqueles que falam de futebol e outras conversas vãs. Representa a própria mediocridade: muita exposição, pouco conteúdo... muita conversa tola. Acompanho alguns e vejo que os mais sérios têm pouca frequência e quase nenhum comentário. Nada como ser “famoso” e poder falar bobagem e ainda receber muitos comentários. A conversa ficou animada pela certeza de que a mídia havia tomado o lugar dos bancos de escola. A educação ficou chata e sem o charme de antigamente e a exaltação do vulgar tomou o seu lugar. Ninguém quer se expor, tocar em polêmicas necessárias à mudança. Ser falso simpático, hoje, é mais glamoroso que ser sério e honesto. Falso inclusive consigo mesmo.



Categoria: Edição 25/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h45
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Responsabilidade e Intervenção - Haiti2

Praxedes Antunes - o “filósofo de boteco” - chegou cantarolando a música do Caetano: “Se você for a festa do pelô, e se você não for. Pense no Haiti, reze pelo Haiti. O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui”. A conversa derivou para a tragédia lá acontecida e para a incapacidade do humano em resolver seus problemas. Quando não é pela guerra e pelo discurso vazio. Ficou forte a imagem de os “representantes dos países” se levantando ao final da reunião, com a locutora dizendo que a única “decisão mais efetiva” teria sido a marcação de outro encontro para março/10.

Outro ponto, motivo de muita discussão, foi a participação do Brasil na “missão de paz” naquele País. Porfírio Ventosa trouxe o recorte do artigo de “O Tempo” da colunista Fátima Oliveira. Leu um trecho: - Ao nos abraçarmos, ela murmurou pesarosa: “O seu país está ocupando o meu país. Um vexame! Para ela, eu era a materialização do colonizador. Entendi o que minha amiga quis dizer vendo o delírio de haitianos atrás dos urutus (precisavam ser urutus?) com jogadores da seleção brasileira acenando como deuses no Olimpo. Era degradante. Força de Paz da ONU (Brasil no Haiti) ou força de ocupação truculenta (EUA no Iraque) despertam o mesmo sentimento de perda de soberania: há tanques estrangeiros zanzando em minha pátria.” Minha interlocutora, Miriam Merlet, teve a vida ceifada pelo terremoto. A conversa ficou calorosa ao se debater o direito que os países têm de interferir na “saúde e na doença” de um outro país. Sobre os mais variados argumentos, há uma invasão social, cultural. Já não chega o que fizeram com os índios aqui e nos EUA, especialmente – concluíram. Enquanto isto, argumentavam, o Haiti está aqui, com toda nossa miséria social e cultural, mal retratada pela mídia. Praxedes puxou, de novo a cantoria: “Se você for a festa do pelô, e se você não for. Pense no Haiti, reze pelo Haiti. O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.” – logo seguido por todos. Porfírio repassou a todos o link do artigo da colunista:

http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdEdicao=1552&IdColunaEdicao=10717



Categoria: Edição 25/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h44
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Haiti é Aqui

Praxedes começou o assunto Haiti. Nem bem nos recuperamos de Angra e já aconteceu no Haiti. Ainda agora, com menos intensidade, os tremores de terra na Argentina e no Irã. Na cabeça de todos a certeza de que a natureza certamente se revoltou. E os espíritos ruins estavam soltos, para assombrar as pessoas; como que a lhes lembrar da falta de amor a Deus. Tanta barbaridade, às vezes legais, mas certamente imorais. Daí a certeza de que o mundo sofrerá muita transformação. Saímos de lá com algumas questões, como a de um “dever de casa”. Concordara todos em “filosofar” sobre o tema, baseados em nossa certeza de que, daqui a pouco o mundo estará vivendo uma nova era. O alimento e a água potável serão escassos. As moedas perderão significativamente o valor. O escambo estará de volta. Deveriam todos pensar nas mudanças principais no modo de se viver que virão em consequência e responder a duas questões: - Que sentido cada um daria à própria vida? - O que cada um estará fazendo para sobreviver?



Categoria: Edição 18/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h41
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Copa e Olímpiada

Daí a copa começou a ser discutida, reforçado pela notícia que Porfírio trouxe. Lera que o orçamento para o evento havia sido reduzido. Esta decisão reforçava o argumento da estratégia do governo lulista em não lutar pelas eleições. Menos recursos, menos obras, maior possibilidade de fracasso. Daí fazer valer a tese de que o seu governo fizera de tudo pela Copa e o sucessor fracassaria na realização. Argumento bom para a volta triunfal. De qualquer forma, a redução orçamentária foi assunto de preocupação. Os projetos grandiosos, a falta de recursos, a possibilidade de nova crise na economia mundial, pôs a Copa em berlinda. Como pano de fundo, a violência crescente e os bárbaros crimes. Tudo isto e ainda a nossa decadência futebolística. Cada vez mais, um futebol de força, ríspido, muito “marketing” e pouca bola.



Categoria: Edição 18/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h40
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Eleições

Praxedes Antunes puxou conversa no boteco, falando das eleições deste ano. Ele se disse incomodado com a possibilidade da chapa purossangue do PSDB. Seria apenas uma estratégia peessedebista, principalmente do Aécio, ou então se tratava de uma grande confusão que reinaria em suas odes. O difícil, todos concordavam, era prever o comportamento de políticos. Escondem tanto suas próprias investidas, que acabam por enganar e confundir o próprio eleitorado. Vaticanizam tanto que eles próprios se confundem. Causou maior discussão quando disse da postura do Lula. Tudo começou quando expressou a possibilidade de que ele fazia e fará de tudo para perder as eleições este ano, para não comprometer seu atual governo. Defendeu que os reflexos de seu governo se farão sentir por anos seguidos. As crises econômicas, que ainda virão, os apagões, as trapalhadas nas relações internacionais, as fraudes e corrupções, os conflitos dentro do próprio partido e com aliados. Tudo isto e tantos outros o fizeram seguir na intenção de “entregar” a eleição. Prova disto é a escolha da Dilma como pré-candidata à sua sucessão. Surpresas ainda virão, finalizou Praxedes.



Categoria: Edição 18/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h39
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Português Castiço

Tibiriçá mudou o assunto, citando os inúmeros os erros repetidos à exaustão. Deu alguns exemplos:

1.      “Para eu fazer” é usualmente construído com o “Para mim fazer”. É fácil, basta declinar: para eu fazer, para tu fazeres, para ele fazer. Flexionando o verbo, flexiona-se o pronome pessoal.

2.      “Nossa liquidação vai de 02/01 a 31/01”. Precisamos urgentemente consultar as regras de uso da crase. O básico é que antes de palavras masculinas não se usa a crase. Neste caso, nunca poderíamos usar “Nossa liquidação vai de 02/01 à (dia) 31/01”.

3.      A expressão “A partir” também sofre horrores com suas formas incorretas: Apartir e À partir. A gente diz “o partir” (palavra masculina).

4.      A gente vai ao centro. Quantas vezes vemos: “Agente vai”. É só diferenciar a palavra “gente” de “agente”. Elas têm significados diferentes.



Categoria: Edição 11/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h37
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País do Apagão

O risco de apagão está de volta, com o calor e foi motivo de grande discussão no boteco. Praxedes disse de maneira categórica que no Brasil falta luz; não só a luz que nos ilumina as noites mais escuras, mas a luz do conhecimento. Cancelaram nossas chances de progresso com o nivelamento rasteiro e analfabeto. Não no sentido da falta das letras, mas no sentido de abrir caminhos.

TEXTO NA ÍNTEGRA

PAÍS DO APAGÃO

Comecei a ler “O Ser e o Nada” do Sartre. E fiquei me perguntando o que me vale saber a relação entre conhecimento e consciência. Fiquei admirado em perceber que todas as minhas conquistas educacionais, mesmo que pequenas se comparadas com as possibilidades do mundo, foram em vão.

No Brasil falta luz; não só a luz que nos ilumina as noites mais escuras, mas a luz do conhecimento – aqui me permito ser comum e até usar uma frase mais vulgar. Cancelaram nossas chances de progresso com o nivelamento rasteiro e analfabeto.

Não no sentido da falta das letras, mas no sentido de abrir caminhos. Hoje vale menos a competência e a sabedoria do que as acomodações político-partidárias. Vale mais buscar um concurso público do que um diploma em nossas combalidas universidades.

Não acontecem mais debates acalorados sobre posições filosóficas existenciais. Acontecem, sim, mas com uma pitada de patrulhamento “ideológico” do ser contra ou a favor do Lula, do FHC e de qualquer outro figurão do nosso estado tão destruído de originalidade e substância.

O pior é que estamos às vésperas de uma eleição, que já a taxaram de plebiscitária. Reforça minha crença. Deus me livre da baixeza que virá. Dos discursos inflamados, não por crença, mas por defesa de um posto, cargo ou benesse.

Antes, a gente podia separar o joio. Hoje o trigo além de misturado já não tem muito viço. Não existem mais os políticos que a gente tinha certeza de que não votaria nunca. Temos, hoje, a certeza de que não podemos mais confiar em ninguém, porque estão comprometidos com uma história triste de um país de falsa imagem. Não vou fechar o livro e parar de ler, pois é o que me resta em meu canto solitário.

 

 



Categoria: Edição 11/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h35
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Para onde vamos no futebol?

O futebol e o marketing pessoal também foram bem discutidos no boteco. Porfírio destacou que o volumoso movimento financeiro, com somas inacreditáveis, era a chance para alguns se aproveitarem desta situação e se endeusarem. Fazem-se arrogantes na condição de serem imbatíveis e “vencedores”. Esta situação de extrema vaidade contamina dirigentes em seus arroubos de valentia soberba. Enquanto isto, nos campos, os bons jogadores são meros instrumentos de tanto jogo narcisista. Dá para livrar os mais rebeldes e anárquicos. Batalham, são vítimas dos violentos “sem bola”, enfrentam a fúria dos juízes mais suspeitos, são execrados por seus pecados pessoais, têm que se acostumar com a crônica maldosa e leviana. Mesmo assim, depois de muitos gols e vitórias, têm que dividir o sucesso com técnicos e dirigentes falastrões. Deixam de ser as figuras principais.

TEXTO NA ÍNTEGRA

Para onde vamos no futebol?

Não resta nenhuma dúvida de que o futebol é um fenômeno sociológico dos mais intensos. A capacidade de arrastar multidões para os estádios e movimentar milhões de reais, por si só, já é uma clara demonstração de ser um evento de grande magnitude social.

Atrás destes efeitos grandiosos, porém, vêm sempre as mazelas. O encantamento inicial com jogadores de extrema habilidade deu lugar ao que até então era secundário aos espetáculos. Fez avivar a obviedade dos comentários, o deslumbramento e a supervalorização dos técnicos.

Longe de qualquer estado nostálgico, custa-nos lembrar quem foram os técnicos campeões nas campanhas brasileiras nos títulos de 58, 62 e até de 70. Ou então quem foi o técnico do Santos em suas vitórias internacionais na década de 60. A partir de certa época, começou o endeusamento: Telê, Zagalo, Parreira, Luxemburgo e Muricy, por exemplo.

É a chance para alguns se aproveitarem desta situação e se endeusarem; se fazem arrogantes na condição de serem imbatíveis e “vencedores”. Esta situação de extrema vaidade contamina dirigentes em seus arroubos de valentia soberba.

Enquanto isto nos campos, os bons jogadores são meros instrumentos de tanto jogo narcisista. Dá para livrar os mais rebeldes e anárquicos. Batalham, são vítimas dos violentos “sem bola”, enfrentam a fúria dos juízes mais suspeitos, são execrados por seus pecados pessoais, têm que se acostumar com a crônica maldosa e leviana. Mesmo assim, depois de muitos gols e vitórias, têm que dividir o sucesso com técnicos e dirigentes falastrões. Deixam de ser as figuras principais.

Recentemente um técnico chegou a um clube dizendo: eu sou vencedor. Exemplifica por simplesmente ignorar deliberadamente que os campeões são os jogadores que atuaram. Esconde a verdade atrás de sua feira de vaidade; constantemente aberta e requintada de pílulas douradas.

Fora dos bastidores, vem a massa de torcedores. Manipulados na falácia, são instrumentos da própria paixão, cada vez mais intensificada pela insistência de frases de efeito; portanto cegamente desairosos.

No meio deste campo, os bajuladores comentaristas que formam listas, falam obviedades, distorcem fatos e são passionais e parciais.

Como pano de fundo o famigerado “marketing pessoal”; assim dito porque se faz distorcido pelo efeito kitsch - um termo de origem alemã (verkitschen) que é usado para categorizar objetos de valor estético distorcidos e/ou exagerados - pt.wikipedia.org/wiki/Kitsch. Alguém distorceu o valor que Philip Kotler empreendeu ao criar os conceitos de marketing; cujo valor intrínseco é o produto ou serviço. Inverteram o ditado que reza “não basta ser, é preciso parecer ser”. Fizeram o “não precisa ser, basta parecer ser”; em clara evidência de que as mentiras que inventam ficam maiores do que eles mesmos. O autor do marketing integrado não pregava que a comunicação pudesse ser maior que o produto. Este desequilíbrio torna-se um mal psicossociológico; mais ainda quando vêm os arroubos de valentia inconsistente; no estilo “daqui por diante, seremos vencedores, seremos campeões”. Passa o tempo e as promessas ficam tão distantes e esquecidas por novas valentices.

 



Categoria: Edição 11/janeiro
Escrito por Maurício César de Carvalho às 05h33
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